CHANCE FINAL

marido e mulherCapítulo UM

Heitor Souza sentou-se com o resto do público no auditório. A palestra seria ao vivo. Sentiu-se estranho. Como se alguém o observasse. Sentado no meio de pelo menos uns duzentos advogados presentes na plateia, naquela tarde de meados de maio, estava vestido de terno preto com riscas de giz, é claro, e com seus cabelos castanhos bem cortados, olhos castanhos e argutos e a barba bem aparada, parecia exatamente o curitibano que era. Enquanto observava o convidado sentado à mesa, ocupado em ler seu laptop naquele momento, ele conseguiu observar sorrateiro a loira atraente sentada duas fileiras acima. Sua profissão exigia que fizesse várias coisas ao mesmo tempo.

Ele era advogado empresarial em busca de uma tese já esboçada, necessitando ajustes. A loira estilosa devia ser apenas mais uma advogada no auditório; ainda assim, o observador profissional que havia dentro dele não poderia deixar de notar o quanto ela ficava elegante com aquele terno preto, paletó fechado, deixando à mostra uma blusa de seda branca aberta à altura do busto perfeito. Desviando o pensamento, ele tentou voltar sua atenção de novo para o convidado. Aquele cara era considerado o papa do Direito empresarial. Ofuscado pelas luzes das câmeras de televisão, Heitor teve a impressão de que o convidado parecia estar prestes a fugir do palco. A palidez da face se fez azulada. Ele assumira uma postura engraçada ao ver as câmeras. Agindo como se fosse um novato, e parecia que o terror aumentava a cada momento em que o focalizavam. Houve um burburinho entre a plateia, inclusive a loira atraente virou-se para a mulher ao seu lado e cochichou algo. Todos o consideravam uma sumidade, mas não entendiam aquele pavor estampado no rosto do convidado.

Aos poucos foram calando, enquanto outras pessoas adentravam ao palco e sentavam-se ao lado do convidado da tarde. Ele pareceu amparado e ajeitou-se na cadeira. Não fazia sentido, pensou Heitor, já que ele dava palestras há muito tempo.

Envolto numa aura de paz e tranquilidade Timotheo Magalhães de Abreu deu início à palestra. Discorreu sobre o Direito empresarial, sua importância e as mudanças advindas com o novo código. Foi brilhante em sua exposição e Heitor conseguiu fechar sua tese, entendendo algumas nuances expostas pelo professor. Heitor jamais ouvira um palestrante comunicar-se com tanta habilidade. Timotheo Magalhães de Abreu era bom — muito melhor do que a maioria dos palestrantes, aos quais Heitor assistira ao longo dos dezoito anos de sua carreira jurídica.

— Eu sei que é difícil — Timotheo disse no microfone —, mas preciso lhe dar um recado Heitor. Alguém pede para lhe dizer que chegou a hora de deixar que ele se vá. Você sofrerá um baque, porém precisará confiar em Deus. Somente Ele poderá ajudá-lo. Depois disso, parecia que ia desmaiar.

Timotheo fez uma pausa e colocou a mão na testa, como se estivesse voltando de um lugar longínquo.

A plateia fez um: Oh!

O espanto foi geral. Um homem tão brilhante e de repente… aquilo. Em seguida um mutismo geral, a multidão inclinou-se coletivamente para a frente em suas poltronas. Todos procuravam quem era o Heitor.

A seguir alguém perguntou:

— Quem é Heitor?

Silêncio completo. Ele gostaria de se diluir no ar. Por que aquele homem tinha que passar mal e falar o seu nome? Por que ele, afinal?

— Quero me desculpar com os senhores. Tal situação jamais me aconteceu anteriormente. Sou espírita kardecista e frequento meu grupo de estudos da Doutrina Espírita, mas nunca havia recebido uma mensagem ao dar palestra na área do Direito. Só peço a Heitor, seja ele quem for, que leve em consideração as palavras ditas através da minha boca. Procure auxílio espiritual. Você vai necessitar de muita ajuda. Agora peço licença a todos, mas devo me retirar. — Falando isso, Timotheo levantou-se da cadeira e saiu do palco.

A plateia não aplaudiu o brilhantismo do professor. As pessoas foram se retirando paulatinamente do auditório. Ele continuava sentado, como pregado àquela poltrona. Finalmente resolveu levantar-se. Estava tonto, estômago revolto. Saiu do prédio e respirou ar puro. Ali conseguiu se refazer para voltar ao carro e dirigir até em casa.

***

Orlando Souza, um homem na casa dos sessenta e cinco anos, ainda mantinha o porte altivo de outros tempos. Olhou para a mulher e comentou:

— Não vejo a hora de Heitor refazer a vida dele. Depois tem Michel. Agora sem a mãe ele fica jogado. O pai não tem tempo para o menino. Se não fossemos nós a dar carinho a essa criança acho que ele já teria morrido de fome, não iria mais para o colégio.

— Pare de reclamar, homem — admoestou Hilda — ele precisa trabalhar para dar educação ao filho e sabe que pode contar conosco. Jamais deixaremos de dar atenção ao nosso neto. Depois, eles moram aqui ao lado, não me incomoda que almocem e jantem todos os dias conosco. Se você não quiser mais levar e buscar o menino no colégio, eu mesma posso fazer isso.

— Não é isso que quis dizer. Não me custa nada levar Michel para a escola. Isso me dá prazer. Sinto-me útil. O que me preocupa é a relação de pai e filho. Heitor nunca tem tempo para o filho. E o garoto precisa de uma mãe. Heitor devia se casar novamente.

— Ninguém substitui a figura de uma mãe, meu velho. Isso é besteira. Claro que se Heitor se casar de novo vai procurar uma mulher que goste do filho dele, mas jamais será mãe do garoto.

O velho senhor apenas meneou a cabeça em sinal de negação.

Michel entrou pela porta naquela sua maneira estabanada e se jogou sobre o avô, sentado em sua cadeira predileta.

— De onde você está vindo, menino? — perguntou, num tom que gostaria fosse de bronca, mas o olhar adocicado pela presença do neto o deixava vulnerável a perspicácia de Michel.

— Ora, vovô querido — abraçando o pescoço do velho senhor — estava na aula de karatê, no salão do condomínio. Lembra da semana passada? Eu disse a você que iria fazer karatê duas vezes por semana.

— Mas por que karatê? É um esporte tão violento…

— Não é não, vovô. É defesa pessoal. Depois eu sou franzino, preciso melhorar meu físico.

— Franzino? Você tem apenas oito anos. Espere até começar a encorpar, depois da adolescência — o velho senhor ria da preocupação do neto.

— Foi minha mãe quem disse ontem à noite que eu devia fazer karatê.

O avô, olho arregalado, observou o neto. As palavras mortas na boca.

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