Cuidado com o Carnaval. Ele pode ser ‘coquetel explosivo’ para espalhar zika

zika virusAlta concentração de pessoas em cidades com casos de vírus zika preocupa os infectologistas.

A passagem de milhares de turistas por capitais com tradicionais carnavais de rua em Estados com alto número de casos de bebês nascidos com microcefalia e suspeita de ligação com o zika vírus pode representar um “coquetel explosivo” e ajudar a espalhar ainda mais a doença pelo país, alerta a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Para os especialistas, o Carnaval reúne fatores de risco preocupantes para o aumento da transmissão do zika, num momento em que a epidemia ainda se encontra em curva de ascensão no Brasil.

O alerta se soma a um comunicado da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS, escritório regional nas Américas da Organização Mundial da Saúde), que relata o aumento de casos da síndrome de Guillain Barré em países com epidemias de zika.

O “coquetel explosivo” do Carnaval inclui, segundo os infectologistas, as grandes aglomerações de pessoas, em geral com poucas roupas e mais vulneráveis às picadas do Aedes aegypti (mosquito transmissor da dengue, chikungunya e zika), possibilidade de chuvas, maior quantidade de lixo nas ruas e por consequência mais chance de potenciais criadouros do mosquito.

Isso se soma ao maior número de relações sexuais sem proteção e risco de gestações indesejadas justamente nos locais de maior incidência do vírus relacionado à má formação fetal, dentre outras consequências ainda pouco conhecidas.

Nancy Bellei, coordenadora de virologia clínica da SBI, cita a preocupação com a transmissão sexual devido a um estudo de 2011 que teria documentado como um cientista americano vindo do Senegal, que passava por um surto de zika, teria transmitido a doença para a mulher, nos Estados Unidos, através do sêmen.

“Ainda precisamos de mais estudos sobre a relevância epidemiológica dessa forma de transmissão, mas até pouco tempo também não sabíamos da ligação entre o zika e a microcefalia. É uma doença nova, sobre a qual ainda não se sabe muito. Não precisamos esperar para nos protegermos. Não se pode descartar a chance de termos até um aumento de casos de zika após o Carnaval justamente pelo contato sexual”, diz.

Nancy explica que o potencial de propagação do zika devido ao Carnaval também depende da existência do mosquito nos locais de origem dos turistas.

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“Se a pessoa vai para uma capital com grande Carnaval de rua, é picada e infectada pelo zika e volta para sua cidade mas lá não há o mosquito, ela vai adoecer, se tratar, e tudo bem. Agora, se o local de origem tiver o Aedes, o mosquito pode picar essa pessoa, receber o vírus e introduzir a doença num local até então livre dela”, explica.

Segundo a especialista, o Aedes é encontrado em todos os Estados, mas a região Sul estaria menos vulnerável, por ter clima mais frio e tradicionalmente apresentar menor incidência do mosquito.

Vamos continuar a ler?

  1. JUIZ FEDERAL

capa-Honestidade-Contestada--Clube-dos-Autores

Posto a importância do cargo, as controvérsias que o cercam e as pessoas violentas e desprovidas de caráter que por vezes são confrontadas, é óbvio que no Brasil muitos juízes, tanto estaduais quanto federais, sejam assassinados.

Sua Excelência Juiz Federal da 3ª. Vara Criminal, Carlos Roberto Faizal acaba de ser assassinado. Seu corpo foi encontrado jogado dentro do chalé construído por ele e usado nos finais de semana.

Lembrou de seu pai. “Nossa família não tem sorte”. Começo acreditar nessa premissa. O juiz Faizal estava quedado a lhe dar condições para a prisão domiciliar. A chance de ele respirar liberdade foi pelos ares.

Quando Faizal não apareceu na segunda-feira para trabalhar e comandar o julgamento marcado para a parte da tarde, todos seus auxiliares, oficiais de Justiça e Polícia Federal entraram em alerta. O juiz Faizal era um funcionário público de extrema responsabilidade com horários. No devido tempo os agentes federais entraram em ação até encontrarem o local do crime. O chalé ficava apenas 45 minutos de Belo Horizonte, com vista para a belíssima Serra de Igarapé.

Nada indicou entrada forçada, nem briga, ou luta, nada além de dois corpos, com buracos de bala na cabeça, e um cofre de metal vazio, mantido atrás de um quadro de Juarez Machado, agora jogado no chão, necessitando restauração. O juiz Faizal foi encontrado, de bruços, estirado no rés da parede onde ficava o cofre, com um tiro no meio da testa, definitivamente uma execução. O sangue à volta do corpo já havia secado. O primeiro especialista que averiguou a cena conjeturou ter o juiz sido morto dois dia antes.

Conforme depoimento dos auxiliares da Vara Federal Criminal o juiz Faizal tinha planos de passar o final de semana em seu chalé nas imediações da Serra de Igarapé.

O outro corpo, também com uma bala na testa era a atual secretária do juiz Faizal. Noemi Guerra havia sido contratada há uma semana. Ela era divorciada e tinha duas filhas adolescentes do primeiro casamento. O juiz Faizal era casado com Vivian Faizal, vinte anos mais jovem que ele, mas o casal vivia um casamento de aparência, voz corrente dentro do prédio da Justiça Federal. A importância do cargo ocupado o obrigava a manter um arranjo entre os dois, mas amigos e filhos já adultos e casados tinham total conhecimento da situação. Na verdade Vivian Faizal era a herdeira de um empresário de uma siderurgia de aço e o juiz Faizal tinha o status. Assim, o acordo entre ambos andava muito bem. Porém, uma cláusula havia sido descumprida: a da manutenção de um caso. Poderiam ter outras pessoas de forma eventual com muita discrição, mas a sociedade não devia saber.

Logicamente o juiz Faizal havia descumprido esse contrato quando encontrou Noemi e se encantou com aquela mulher em seus plenos 42 anos e em excelente forma física. O juiz já beirava os setenta anos e jamais conseguira manter as calças afiveladas quando encontrava uma mulher bonita e disponível. Depois de Noemi passar a fazer parte da folha de pagamento no tribunal era voz da rádio corredor Faizal estar se engraçando com ela.

O cofre era uma caixa-forte. O Cofre Fire Safe Eletronic Lock QE5541 foi desenvolvido para atender às necessidade de empresas e pessoas que precisam proteger dados, documentos e valores contra furto, água e fogo. Permite armazenagem de dados gravados em CDs, DVDs, Pen-Drives, Memory Cards, CompactFlash, Memory Stick, SD e xD, IPod, HD Externo. Fechadura eletrônica com senha programável e chave tubular de segurança, Tinha compartimento para pequenos objetos, suporte para pastas suspensas, certificado ETL contra 2 horas de fogo com temperatura de até 1850° F, certificado ETL contra 24h de submersão em água, proteção garantida contra quedas de até 30 pés. Sua medidas externas: 60.3cm x 47.2cm x 49.1cm (A x L x P) e as internas: 49,9cm x 37,6cm x 30,2cm (A x L x P). Se o juiz Faizal tivesse uma conexão poderia gravar os dados do notebook para um HD externo dentro do cofre. O peso do cofre era de 95,7 Kg. O cofre estava vazio, não havia em nenhum desses compartimentos qualquer documento ou eletrônico.

Por que um juiz federal que ganhava 65 mil reais por mês precisavsa de um cofre tão seguro e escondido para seus bens e todos os formatos de eletrônicos disponíveis? Aquilo despertou a curiosidade dos agentes federais. Na época de sua morte o juiz tinha em sua conta bancária pessoal R$ 100 mil reais, R$ 300 mil em ações e mais um total de R$ 55 mil em fundos de investimentos.Ele também tinha um seguro de R$ 2 milhões e meio em nome da esposa, como beneficiária. Não havia deixado nenhuma dívida. Sua segurança era seu emprego de juiz federal. Como permite a Constituição Federal Brasileira ele já tinha tempo para aposentar-se e continuaria recebendo sua aposentadoria de forma integral.

A Sra. Faizal não necessitava de nenhum desses valores, apesar do casamento com união total de bens. Ela era herdeira única da Aço Siderúrgica Passos. O pai estava nas últimas e a empresa era administrada por um CEO, uma das inteligências econômico-administrativa mais brilhante do país, assim ela não precisava das migalhas escondidas pelo marido. O juiz Faizal, no entanto, jamais chegou nem perto do dinheiro da esposa, porque o sogro não o permitia. Usava de todas as artimanhas jurídicas possíveis para evitar que o genro alcançasse o dinheiro. Resultado: o juiz vivia com muito conforto mas nem de longe ele conseguiria levar uma vida de abundância e riqueza.

Assim, a pergunta dos inspetores federais era saber o por quê da existência daquele cofre? Ou ainda, por que o cofre aberto e vazio poderia ser a causa da morte de Faizal? A Polícia Federal no curso da investigação entrevistou familiares, amigos, funcionários do Tribunal. Todos foram unânimes em dizer que ele não tinha hábitos caros ou raros que necessitassem de tanta proteção.

O chalé ficava tão dentro do condomínio de chácaras, Vivendas Santa Mônica, em Igarapé. Era quase impossível encontrá-lo. A beleza do lugar e o aconchegante chalé fica a 45 minutos de Belo Horizonte. Um lugar tranquilo perto do município de Igarapé. Vista belíssima da Serra de Igarapé. Um belo refúgio. Costuma receber um moderado número de proprietários, não sendo muito conhecida ainda entre os que visitam o município. Seus principais frequentadores são moradores, que aproveitam os finais de semana e feriados para descansar e pescar. Viver as delícias do campo com a tradicional culinária mineira, pescaria, passeios a cavalo e canoas, trilhas ecológicas e tomar um delicioso banho nos riachos. Não havia no curso da investigação um motivo para alguém se locomover até a Vivendas Santa Mônica, em Igarapé e praticar o crime.

O juiz guardava um caiaque e pelo jeito ainda tinha disposição de se aventurar pelas corredeiras dos rios. Na verdade gostava de caminhar pelas trilhas e respirar ar puro, no intuito de manter a saúde física e mental. Era um homem tranquilo, não solitário nem tímido, mas sério e racional.

Bem-nascido, bem-criado, bem-educado, embora sem grande posses o Juiz Faizal era um homem de caráter, como todos afiançavam. Logo após prestar o concurso para a magistratura reencontrara Eloisa. Ficara deslumbrado com sua beleza.

Eloisa era bonita, jovem, e havia nela uma certa frieza que o deixava enlouquecido. Ele pedia, implorava, cortejava, desejava desesperadamente casar-se com ela, e quanto mais insistia, mais arredia ela se mostrava. Foram necessários praticamente dois anos para que a convencesse a tornar-se sua mulher. Faizal queria filhos. Encheria de criança a linda casa comprada para ela. Tinha imenso orgulho. Explodia de satisfação sempre que a apresentava a alguém. Mas levou mais dois anos para convencê-la a engravidar. Ela sempre dizia que precisava de mais tempo. E, embora nunca houvesse dito isso abertamente, ter filhos não era o que de fato queria. Sua própria infância fora tão desagradável que não se sentia particularmente atraída pela ideia de ter filhos. Mas aquilo significava tanto para o marido, que ela acabou cedendo. E arrependeu-se de imediato, depois.

Teve uma gravidez difícil, com enjoos violentos até perto do fim, e o parto foi horrível. Experiência que ela soube nunca mais se repetir e esqueceria para sempre daquele parto. Na mente de Eloisa, apesar da adorável trouxinha cor-de-rosa que puseram em seus braços no dia seguinte, aquilo não a emocionava. E desde o início aborrecia-a ver quanta atenção o marido dedicava ao bebê. Era o tipo de paixão que ele um dia tivera por ela e, de repente, o marido só parecia pensar em Hannah… se ela estava agasalhada o bastante… se não estava com frio… se comera… se alguém trocara a fralda da menina… se Eloisa vira o quanto era doce o seu sorriso…

Ele pensava sobre a impressionante semelhança de Hannah com a mãe dele. Só de ouvi-lo, Eloisa tinha vontade de gritar todas as vezes em que via a filha.

Rapidamente ela voltou às suas próprias atividades, indo às compras, aos chás vespertinos e aos almoços com as amigas. E, mais do que nunca, ela queria sair todas as noites. Não tinha absolutamente qualquer interesse no bebê. Ela admitiu para várias das mulheres com as quais jogava bridge nas tardes de quarta-feira que considerava a criança incrivelmente entediante e bastante repulsiva. E a forma como ela falava sempre as divertia. Ela era tão franca, que as

outras mulheres achavam engraçado. Na realidade, ela mostrava-se menos maternal do que nunca.

Faizal, porém, estava convencido de que ela aos poucos iria se acostumar. Algumas pessoas não tinham jeito com bebês, dizia ele a si mesmo sempre que a via com Hannah. Ela ainda era muito jovem, estava com vinte e quatro anos, e era muito bonita. Ele tinha certeza de que, quando o bebê começasse a fazer mais gracinhas, isso conquistaria a mãe. Mas esse dia nunca chegou, não para Eloisa, ou para Hannah. Na verdade, quando Hannah começou a engatinhar por toda parte, puxando as coisas, ficando de pé junto à mesinha de centro e atirando os cinzeiros no chão, quase enlouqueceu a mãe.

— Meu Deus… olhe a bagunça que essa criança faz… Está sempre derrubando e quebrando as coisas, e tem sempre alguma coisa nela suja…

— Ela é só uma criança, Eloisa — dizia ele delicado, tomando Hannah nos braços, abraçando-a de forma amorosa, e então colando os lábios à barriga da filha, enchia-a de beijos estalados.

— Pare com isso, que coisa mais nojenta! — repreendia-o Eloisa, severamente, olhando-o com repulsa.

Ao contrário de Faizal, Eloisa quase nunca tocava a filha. Uma babá que tiveram no início compreendera tudo rapidamente e partilhara suas conclusões com o pai da menina. Ela disse que Eloisa tinha ciúmes da filha. Aquilo pareceu ridículo ao juiz Faizal, mas, com o tempo, ele começou a perceber as atitudes da esposa. Todas as vezes em que falava com a menina, ou a colocava no colo, Eloisa ficava zangada. E quando Hannah estava com dois anos, Eloisa batia em suas mãozinhas todas as vezes em que as estendia para tocar alguma coisa na sala de visitas ou no quarto dos pais. Ela achava que Hannah deveria ficar restrita ao seu quarto e expressava essa sua opinião.

— Não podemos trancá-la lá em cima — objetava Faizal quando a encontrava em seu quarto, sempre que chegava em casa depois do trabalho.

— Ela destrói tudo — respondia Eloisa, como sempre parecendo zangada.

Mas ficou ainda mais furiosa quando o marido fez um comentário sobre como o cabelo de Hannah era bonito; e seus cachinhos, dourados brilhavam à luz do sol. Foi no dia seguinte que Hannah cortou os cabelos pela primeira vez. Eloisa levou-a ao salão com a babá e, quando retornaram, os cachinhos haviam desaparecido. Quando Faizal expressou sua surpresa, Eloisa explicou que cortar o cabelo era bom para a saúde da menina.

A rivalidade começou a tornar-se séria quando Hannah aprendeu a falar frases e corria pelo corredor, soltando gritinhos para ver o pai. Pressentindo o perigo próximo, em geral ela passava ao largo da mãe. Eloisa mal conseguia se conter enquanto observava Faizal brincar com a menina, e quando ele finalmente começou a criticá-la pelo pouco tempo que passava com a filha, um abismo começou a crescer entre Eloisa e o marido. Estava cansada de ouvi-lo queixar-se com ela por causa da filha. Em sua opinião, aquela era uma atitude pouco masculina e repugnante.

A primeira surra de Hannah aconteceu quando ela estava com três anos, numa manhã de forma acidental a menina derrubou um prato da mesa do café da manhã, quebrando-o.

Eloisa estava sentada pouco à vontade ao lado dela, tomando seu café. E, sem hesitar, no instante em que o prato caiu, ela estendeu o braço e esbofeteou a menina.

— Nunca mais faça isso… entendeu? — Hannah ficara fitando-a, os olhos cheios de lágrimas, o rostinho uma máscara de choque e mágoa. — Você está me ouvindo? — tornou a gritar para a menina. A essa altura, os cachinhos já haviam reaparecido, e os imensos olhos azuis fitavam a mãe, confusos. — Me responda!

— Desculpe, mamãe… — Faizal acabara de entrar na sala e viu o que estava acontecendo com incredulidade, mas estava tão chocado que nada fez para impedir. Receava interferir e tornar as coisas ainda piores.

Ele nunca vira Eloisa tão furiosa. Três anos de raiva, ciúme e frustrações vinham à tona como um vulcão que havia muito ameaçasse entrar em erupção.

— Se fizer isso de novo, Hannah, vou dar uma surra em você! — disse Eloisa de modo ameaçador, sacudindo a criança pelos braços até os dentes dela começarem a bater. — Você é uma menina muito, muito má, e ninguém gosta de crianças más. — Hannah olhou do rosto da mãe, tomado pela fúria, para o pai de pé junto à porta, mas este nada disse. Teve medo de dizer.

E, assim que Eloisa percebeu sua presença, tomou a criança nos braços e levou-a de volta para o quarto, deixando-a lá, sem o café da manhã. Deu-lhe um tapa com força no traseiro antes de sair. Hannah estava deitada na cama, soluçando, quando a mãe saiu para voltar à mesa do café.

— Não era preciso fazer aquilo — disse Faizal baixinho, quando Eloisa veio tomar mais uma xícara de café.

Ele percebeu que suas mãos estavam trêmulas e que ela ainda parecia zangada.

— Se eu não fizer isso, você um dia acabará com uma delinquente juvenil nas mãos, posto que seu comportamento é muito frouxo em relação à educação dela. Disciplina é necessário para as crianças aprenderem como se comportar na vida adulta.

Os pais de Faizal haviam sido bons para ele, que ainda estava perplexo diante da reação de Eloisa. Mas ele também tinha consciência de que a filha a deixava muito nervosa.

Eloisa nunca mais fora a mesma depois do nascimento de Hannah e atualmente estava sempre aborrecida com ele por causa de alguma coisa. Suas esperanças de ter uma família alegre e crianças rodeando a mesa de refeições tinham desaparecido havia muito.

CHANCE FINAL

marido e mulherCapítulo UM

Heitor Souza sentou-se com o resto do público no auditório. A palestra seria ao vivo. Sentiu-se estranho. Como se alguém o observasse. Sentado no meio de pelo menos uns duzentos advogados presentes na plateia, naquela tarde de meados de maio, estava vestido de terno preto com riscas de giz, é claro, e com seus cabelos castanhos bem cortados, olhos castanhos e argutos e a barba bem aparada, parecia exatamente o curitibano que era. Enquanto observava o convidado sentado à mesa, ocupado em ler seu laptop naquele momento, ele conseguiu observar sorrateiro a loira atraente sentada duas fileiras acima. Sua profissão exigia que fizesse várias coisas ao mesmo tempo.

Ele era advogado empresarial em busca de uma tese já esboçada, necessitando ajustes. A loira estilosa devia ser apenas mais uma advogada no auditório; ainda assim, o observador profissional que havia dentro dele não poderia deixar de notar o quanto ela ficava elegante com aquele terno preto, paletó fechado, deixando à mostra uma blusa de seda branca aberta à altura do busto perfeito. Desviando o pensamento, ele tentou voltar sua atenção de novo para o convidado. Aquele cara era considerado o papa do Direito empresarial. Ofuscado pelas luzes das câmeras de televisão, Heitor teve a impressão de que o convidado parecia estar prestes a fugir do palco. A palidez da face se fez azulada. Ele assumira uma postura engraçada ao ver as câmeras. Agindo como se fosse um novato, e parecia que o terror aumentava a cada momento em que o focalizavam. Houve um burburinho entre a plateia, inclusive a loira atraente virou-se para a mulher ao seu lado e cochichou algo. Todos o consideravam uma sumidade, mas não entendiam aquele pavor estampado no rosto do convidado.

Aos poucos foram calando, enquanto outras pessoas adentravam ao palco e sentavam-se ao lado do convidado da tarde. Ele pareceu amparado e ajeitou-se na cadeira. Não fazia sentido, pensou Heitor, já que ele dava palestras há muito tempo.

Envolto numa aura de paz e tranquilidade Timotheo Magalhães de Abreu deu início à palestra. Discorreu sobre o Direito empresarial, sua importância e as mudanças advindas com o novo código. Foi brilhante em sua exposição e Heitor conseguiu fechar sua tese, entendendo algumas nuances expostas pelo professor. Heitor jamais ouvira um palestrante comunicar-se com tanta habilidade. Timotheo Magalhães de Abreu era bom — muito melhor do que a maioria dos palestrantes, aos quais Heitor assistira ao longo dos dezoito anos de sua carreira jurídica.

— Eu sei que é difícil — Timotheo disse no microfone —, mas preciso lhe dar um recado Heitor. Alguém pede para lhe dizer que chegou a hora de deixar que ele se vá. Você sofrerá um baque, porém precisará confiar em Deus. Somente Ele poderá ajudá-lo. Depois disso, parecia que ia desmaiar.

Timotheo fez uma pausa e colocou a mão na testa, como se estivesse voltando de um lugar longínquo.

A plateia fez um: Oh!

O espanto foi geral. Um homem tão brilhante e de repente… aquilo. Em seguida um mutismo geral, a multidão inclinou-se coletivamente para a frente em suas poltronas. Todos procuravam quem era o Heitor.

A seguir alguém perguntou:

— Quem é Heitor?

Silêncio completo. Ele gostaria de se diluir no ar. Por que aquele homem tinha que passar mal e falar o seu nome? Por que ele, afinal?

— Quero me desculpar com os senhores. Tal situação jamais me aconteceu anteriormente. Sou espírita kardecista e frequento meu grupo de estudos da Doutrina Espírita, mas nunca havia recebido uma mensagem ao dar palestra na área do Direito. Só peço a Heitor, seja ele quem for, que leve em consideração as palavras ditas através da minha boca. Procure auxílio espiritual. Você vai necessitar de muita ajuda. Agora peço licença a todos, mas devo me retirar. — Falando isso, Timotheo levantou-se da cadeira e saiu do palco.

A plateia não aplaudiu o brilhantismo do professor. As pessoas foram se retirando paulatinamente do auditório. Ele continuava sentado, como pregado àquela poltrona. Finalmente resolveu levantar-se. Estava tonto, estômago revolto. Saiu do prédio e respirou ar puro. Ali conseguiu se refazer para voltar ao carro e dirigir até em casa.

***

Orlando Souza, um homem na casa dos sessenta e cinco anos, ainda mantinha o porte altivo de outros tempos. Olhou para a mulher e comentou:

— Não vejo a hora de Heitor refazer a vida dele. Depois tem Michel. Agora sem a mãe ele fica jogado. O pai não tem tempo para o menino. Se não fossemos nós a dar carinho a essa criança acho que ele já teria morrido de fome, não iria mais para o colégio.

— Pare de reclamar, homem — admoestou Hilda — ele precisa trabalhar para dar educação ao filho e sabe que pode contar conosco. Jamais deixaremos de dar atenção ao nosso neto. Depois, eles moram aqui ao lado, não me incomoda que almocem e jantem todos os dias conosco. Se você não quiser mais levar e buscar o menino no colégio, eu mesma posso fazer isso.

— Não é isso que quis dizer. Não me custa nada levar Michel para a escola. Isso me dá prazer. Sinto-me útil. O que me preocupa é a relação de pai e filho. Heitor nunca tem tempo para o filho. E o garoto precisa de uma mãe. Heitor devia se casar novamente.

— Ninguém substitui a figura de uma mãe, meu velho. Isso é besteira. Claro que se Heitor se casar de novo vai procurar uma mulher que goste do filho dele, mas jamais será mãe do garoto.

O velho senhor apenas meneou a cabeça em sinal de negação.

Michel entrou pela porta naquela sua maneira estabanada e se jogou sobre o avô, sentado em sua cadeira predileta.

— De onde você está vindo, menino? — perguntou, num tom que gostaria fosse de bronca, mas o olhar adocicado pela presença do neto o deixava vulnerável a perspicácia de Michel.

— Ora, vovô querido — abraçando o pescoço do velho senhor — estava na aula de karatê, no salão do condomínio. Lembra da semana passada? Eu disse a você que iria fazer karatê duas vezes por semana.

— Mas por que karatê? É um esporte tão violento…

— Não é não, vovô. É defesa pessoal. Depois eu sou franzino, preciso melhorar meu físico.

— Franzino? Você tem apenas oito anos. Espere até começar a encorpar, depois da adolescência — o velho senhor ria da preocupação do neto.

— Foi minha mãe quem disse ontem à noite que eu devia fazer karatê.

O avô, olho arregalado, observou o neto. As palavras mortas na boca.